
Gastroenterologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com especialização pelo Hospital Federal de Lagoa...
i
Cerca de 2,5 milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência do consumo de álcool. Além disso, muitos prejuízos podem ocorrer com a saúde de quem consome esta droga em excesso, incluindo danos a órgãos do trato gastrointestinal.
No esôfago, o álcool pode causar a doença do refluxo gastresofágico por promover o relaxamento do esfíncter esofagiano superior, esofagite (inflamação do esôfago), com risco de formação de esôfago de Barrett e evolução para câncer de esôfago. Quando ocorrem vômitos, é possível que o esôfago seja lacerado e consequentemente sobrevém hemorragia digestiva alta.
Cabe salientar que bebidas fermentadas podem levar a essas doenças, mas as bebidas destiladas possuem um risco ainda maior.
No estômago a gastrite é uma complicação frequente e, em casos mais graves, pode-se ter a formação de úlcera gástrica. O álcool é capaz de deixar o esvaziamento gástrico mais lento, permitindo a fermentação de resíduos alimentares e a formação de gases, gerando sensação de plenitude.
Diarreia e síndrome de má absorção, com graus variáveis de carência de diversos macro e micronutrientes, podem resultar do uso de álcool, inclusive causando complicações neurológicas como neuropatia periférica e demência. Outras consequências para o intestino são constipação e piora dos sintomas da síndrome do intestino irritável, além da formação de lesões da mucosa com sangramento.
No fígado, o álcool e, principalmente, os produtos resultantes do seu metabolismo (por exemplo, acetaldeído e radicais livres) são tóxicos para os hepatócitos. Desta forma, temos graus variáveis de lesão, desde a simples alteração das enzimas hepáticas e esteatose (acúmulo de gordura no fígado), passando por hepatites aguda e hepatite crônica, chegando, em alguns casos, à insuficiência hepática irreversível e cirrose hepática.
No caso da esteatose hepática é comum a dor abdominal. Já na hepatite aguda, fora a dor, pode surgir fadiga, icterícia, mal-estar, prurido, com risco de insuficiência hepática e morte. Porém, como o fígado tem uma reserva funcional considerável, o indivíduo pode só apresentar sintomas em uma fase já avançada, quando as alterações não são mais reversíveis pela suspensão do consumo de álcool. Nestes casos de cirrose, a abstinência alcoólica melhora consideravelmente a qualidade de vida e prolonga a sobrevida. Cabe mencionar que menos da metade dos etilistas crônicos chegarão a apresentar cirrose hepática, pois outros fatores ambientais e genéticos também estão envolvidos.
O resultado do abuso de álcool no pâncreas inclui as pancreatites aguda e crônica. A pancreatite aguda é causada pela inflamação do órgão após episódio de libação etílica, sendo potencialmente fatal, mas reversível com a abstinência. Já a pancreatite crônica é uma alteração irreversível que, eventualmente, acarreta complicações como diabetes, síndrome disabsortiva com esteatorreia e dor abdominal crônica. Outra complicação observada das pancreatites alcoólicas é a formação de pseudocisto, com risco de infecção (formação de abscesso), ruptura, compressão de estruturas adjacentes e dor abdominal. Como acontece com o fígado em relação à cirrose, apenas uma minoria dos etilistas crônicos vão desenvolver essas complicações pancreáticas, o que parece ter relação com fatores dietéticos e hereditários.
Saiba mais: Você sabe evitar crises de refluxo?
O risco de câncer também aumenta consideravelmente com o consumo de álcool. Entre as neoplasias pode-se citar:
- câncer de língua
- câncer de faringe
- câncer de esôfago - pelo efeito direto na mucosa e pela facilitação do refluxo gastresofágico
- câncer de estômago
- câncer de intestino
- câncer de pâncreas - risco observado em pacientes que consomem cigarros e álcool
- câncer de fígado
Uma vez com cirrose hepática, mesmo a suspensão do uso da droga não elimina essa chance maior de apresentar hepatocarcinoma.
Cabe salientar que bebidas fermentadas podem levar a essas doenças supracitadas, mas as bebidas destiladas possuem um risco ainda maior. Parar de beber é um fator bastante positivo, podendo curar ou pelo menos ajudar no controle de sintomas, além de melhorar o prognóstico das pessoas com complicações decorrentes desta droga.