Vazio existencial: como aceitar e lidar com ele

A sensação de incompletude, ao mesmo tempo que nos dá a impressão de estarmos sozinhos, também nos conecta uns aos outros

Quando o corpo sente fome, uma refeição pode ajudar. Em momentos de cansaço, o repouso dá conta do recado. Até mesmo os sentimentos quando doem podem ser acalantados com uma dose de afeto e boas conversas. Mas e quando o incômodo é o vazio que não se sabe de onde vem, mas que insiste em fazer morada em nós? O que fazer quando surge aquele sentimento que mesmo dando a sensação de vácuo ocupa um lugar imenso dentro do peito?

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Essa sensação de que nos falta algo que não se sabe o que é geralmente nos pega desprevenidos. Uma tarde nublada em um domingo sem companhias, algumas horas longe das redes sociais ou a ausência de uma atividade que domine nossa atenção são algumas das situações em que nos deparamos com o vazio existencial. Esses, no entanto, não são os únicos momentos em que esse sentimento nos acomete. Algumas pessoas conseguem percebê-lo mesmo estando em uma multidão.

A psicóloga e terapeuta transpessoal Wanessa Moreira explica que vazio existencial é um sentimento de incompletude, que nos traz muitos questionamentos que não conseguimos responder, como: quem sou eu? por que estou aqui? "Passamos grande parte do nosso tempo tentando fugir dessa sensação de vazio, pois não somos treinados a olhar ou lidar com ela", explica Wanessa.

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De acordo com ela nossa rota de fuga do vazio são os mecanismos de prazer instantâneo, como o consumismo, que nos promete felicidade a partir da aquisição de itens, ou a vaidade exacerbada obtida muitas vezes pelo uso das redes sociais, que alimentam o ego e elevam imediatamente nossa autoestima. Comportamentos compulsivos, como consumo excessivo de álcool, cigarro, ou alimentos ricos em açúcares e gorduras saturadas - responsáveis por estimular o sistema de recompensa do nosso cérebro - também são subterfúgios usados para tentar preencher o vazio.

Isso quer dizer que não podemos realizar nenhuma dessas atividades? Claro que não. A vida precisa de momentos de prazer e as vivências ajudam a construir nosso enredo. O desequilíbrio, de acordo com a especialista, é usar esses recursos como rota de fuga para assim evitarmos olhar para dentro de nós. Além disso, não se pode esquecer também que prazer alcançado a partir desses estímulos é passageiro, e logo sente-se a necessidade de mais recompensas, e quando a recompensa não vem, o vazio volta.

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De onde vem o vazio?

Um dos fatores que potencializa o vazio existencial é a sensação de que a vida não tem propósito, como se o passar dos dias fosse apenas para estudar, trabalhar, pagar contas, ter alguns momentos de prazer e envelhecer. Wanessa conta que algumas pessoas podem ter o olhar cristalizado e embrutecido pela rotina, focando-se unicamente nas questões de ordem prática e, na mesma medida, deseducando o olhar para enxergar encantamentos nas situações cotidianas.

Outra questão atrelada ao vazio existencial é a dificuldade de encontrar e entender os papéis de cada um dentro da sociedade. Atualmente não vivemos mais como nas sociedades antigas em que os povoados contavam com um número reduzido de pessoas, por volta de 150 indivíduos, que se conheciam e estabeleciam conexões dentro das suas possibilidades e, obviamente, relações de poder. Nesses povoados, era comum os membros da família terem, por exemplo, a mesma profissão ou serem conhecidos pelo sobrenome da família.

Hoje em dia as configurações sociais possibilitam que as pessoas ocupem lugares diferentes, o sobrenome dos nossos familiares não nos define, o próprio ideal de família tornou-se mais abrangente.

"O mundo passou por mudanças que hoje possibilitam que as pessoas sejam o que quiserem ser. Temos, em alguma instância, a liberdade de escolha. Isso é ótimo, pois traz mudanças sociais necessárias, o mundo está se reinventando a partir das novas configurações de relação, gênero, papéis sociais e profissão", explica a especialista. Outro exemplo que, de certa forma, possibilitava uma sensação de pertencimento era o fato de que durante muito tempo os casamentos eram indissolúveis, ou seja, não era possível se divorciar, especialmente aqui no Brasil. Para se ter uma ideia somente em 1977 a Lei do Divórcio foi assinada no País.

É importante ressaltar que o fato de as pessoas terem mais dificuldade em desfazer um vínculo matrimonial ou terem uma ocupação pré-estabelecida não impede o aparecimento do vazio existencial. No entanto, ajudava a proporcionar uma sensação de ter lugar no mundo. Também é importante dizer que essa sensação de pertencimento não necessariamente tem a ver com felicidade. Por exemplo, muitas das mulheres que se mantiveram casadas na época em que não era possível se divorciar no Brasil não necessariamente eram felizes em suas relações.

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A psicóloga Adriana de Araújo, especialista Minha Vida, explica que muitas pessoas sofrem pois sentem que podem tudo e ao mesmo tempo não podem nada. "A liberdade de escolha nem sempre é sentida como algo livre e realmente libertador, pois poder escolher sem saber como ou o que escolher gera uma dor profunda", diz.

Essa falta de conhecimento sobre o que vem pela frente estimula o cérebro reptiliano, na visão de Wanessa. O cérebro reptiliano é uma área do nosso cérebro localizada abaixo do neocórtex e é responsável pelo nosso sistema de alarme. Essa região, como o nome remete, deriva dos répteis, portanto, é uma região irracional da nossa estrutura cerebral que nos ajuda a garantir a sobrevivência em situações de risco.

O problema é que o cérebro reptiliano não reflete ou elabora pensamentos, ele apenas nos impulsiona a tomar decisões de ataque e defesa, pois é movido pelo medo. Um exemplo é pensar no momento em que atravessamos uma rua e vemos um carro vindo em nossa direção. Nesse tipo de situação, nosso cérebro reptiliano nos impulsiona a correr para evitar que sejamos atropelados.

Imaginar que os questionamentos que fazemos sobre a vida estão atrelados à região do cérebro que comanda estímulos de forma irracional não contribui para um entendimento profundo acerca do assunto.

Incertezas sobre a vida e vazio existencial

A busca do entendimento sobre a vida leva a mais questionamentos do que respostas - é o famoso "tudo que sei é que nada sei". Mas uma das poucas constatações que se podemos ter certeza é a de que nós não temos controle sobre os acontecimentos que nos cercam. Saber disso pode trazer um certo conforto - por outro lado, saber que as pessoas à nossa volta, nossas posses e conquistas podem não estar conosco no dia de amanhã também contribui para a sensação de vazio existencial. Afinal, não saber o que vem pela frente deixa muitas das nossas perguntas sem resposta. O que não tem resposta fica em aberto e, portanto, pode aumentar esse vácuo de incertezas dentro de nós.

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Um vazio onde cabem todos

Ao mesmo tempo que o vazio existencial é algo que faz parecer que estamos sozinhos no mundo e que a vida não tem sentido, também é um dos traços mais espontâneos que possuímos. Logo, se a sensação de que nos falta algo é tão inerente a nós, não seria melhor tentarmos entendê-la e interpretá-la ao invés de ignorarmos sua presença?

Um dos fatores que nos causa a sensação de vazio existencial é justamente a de que não pertencemos a algo. Contudo, poderíamos tentar ampliar o olhar e perceber que é justamente nossa incompletude que nos conecta, não a um sistema social ou familiar, mas nos une uns aos outros. Saber que nenhum de nós está munido de todas as respostas e está fazendo o melhor que pode a todo momento pode gerar um sentimento de conexão com a vida.

Acolhendo o vazio

Um dos maiores fatores que ocasiona o medo do vazio é o hábito de fugir dele. Porém, evitar o contato com ele também reduz o contato com as próprias emoções. De acordo com a especialista Minha Vida Adriana de Araújo, adquirir autoconhecimento proporciona uma base de qualidade para preencher essa sensação. "Desta forma, podemos conviver melhor com o vazio, ter mais equilíbrio nas nossas ideias, mudarmos reações automáticas e gatilhos indesejados", pontua Adriana.

A seguir você encontra algumas dicas práticas para acolher o vazio existencial:

Aceite as emoções

Quando a falta de sentido na vida se manifestar, procure entrar em contato com ela. Deixe os medos, pensamentos e dúvidas virem a tona. Apenas olhe para eles sem julgamento ou premeditando uma ação. Esse tipo de ação ajuda a trazer pensamentos que estão no subconsciente para o consciente.

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Perdoe suas emoções

Por mais que o ideal seja não julgar as emoções, pode ser que você se sinta triste, angustiado e até com raiva diante das próprias emoções. Se isso acontecer, lembre-se que você é humano e tem o direito de sentir. Nesse momento é importante se acolher.

Se sentir vontade, escreva ou grave

Caso você perceba que suas emoções estão transbordando, tome nota delas. Esse é um exercício grandioso de autoconhecimento, pois dá perspectiva sobre o que existe dentro de você e pode até ajudar a elaborar um plano de ação, caso você almeje fazer uma transformação em sua vida.

Aceite que nem todas as perguntas têm resposta

Quem sou eu? Qual é o meu propósito? Qual o sentido da vida? Esses são alguns dos questionamentos que denotam o vazio. E é importante ter em mente que nem sempre eles terão respostas ou pode ser que tenham mais de uma resposta. A vida não precisa ser vista como um formulário em que todos os tópicos precisam ser preenchidos e respondidos, mas pode ser como uma folha em branco na qual escritos, rasuras, desenhos coloridos e abstratos coexistem juntos e ilustram nossa história.

Lembre-se, é sempre possível pedir ajuda

Caso você perceba que o vazio que você sente é maior do que imagina, busque ajuda de um profissional. Psicólogos são pessoas com sensibilidade e conhecimento para te ajudar a lidar com a sensação.